| paint as comment with Blog as tag // as comment O as class // O Blog
Poesia & Programação. Nosso manifesto!
10 de julho às 22:48

Uma Análise

Esse tipo de compor poesia tem qualquer coisa de ficção científica, que nos perquire e nos assombra. Fazer pensar, fazer criar, fazer ser: tudo que nos fez humanos e nos distanciou também de qualquer ideia aquém-homem, aquém-humano.

F.G.M.

Este é um pegueno trecho da análise publicada ontem pelo poeta, professor desenhista e filósofo Felipe Garcia.

Felipe, ou F.G.M., é o autor de dois livros de poesia: Frio Forte e Cápsula.

A análise, apesar de breve, trata de aspectos profundos do manifesto e do movimento da Poesia Compilada como um todo.

Confira a análise na íntegra:

O Manifesto da Poesia Compilada – uma apreciação

As artes poéticas surpreendem pela transmutação da realidade e da palavra poética. O novo sempre vem à tona, e podemos nos deparar com um poema até mesmo diante da última tragédia da existência terrena: a extinção. Nenhum evento na história anunciará o fim do poema, pois faz parte da humanidade a criação intermitente que nos lança a si, mais longa que a vida.

Prova indubitável disso é a intervenção literária que vivenciamos em todo nosso imaginário, desde uma situação banal (uma conversa perdida) até mais complexa (a contemplação de uma eternidade fugaz). Com a palavra, o mundo foi inaugurado e, através dela, outros serão descobertos ou criados. Dessa forma, o que podemos apreciar ainda em seu período embrionário – e deveras avançado – é o poema compilado, mais uma proeza da palavra sobre o mundo.

Como representante e efígie do movimento, temos O manifesto da poesia compilada, que inaugura um estilo único, que mescla uma linguagem da informática [o virtual] com a poética [verbo-visual] para compor uma expressão i-r-real. A temática: a vida ou a matrix ou a syntax. A forma composicional: poema compilado. Como dizem os autores que assinam o manifesto, Soraya Roberta e Felipe Tavares, a poesia, nesse sentido, é um loop infinito.

Um dos pilares desse tipo de poema, a ideia de código-fonte, não é tão distante de uma tradição mística e literária, como as grandes buscas da história humana, como o segredo da imortalidade, o sentido da vida, os mistérios do Universo, a síntese de Tudo ou a tapeçaria do Nada. De repente, os neo poetas descobriram formas e maneiras de (de)formar, (re)formar, (re)configurar esse código-fonte, e expandi-lo, colocá-lo em pânico, (re)iniciando tu[na]da-do.

Na aparente simplicidade do projeto lógico-poético do manifesto, há uma filosofia do contemporâneo (a desintegração do sujeito via virtualidades e a busca de uma totalidade fragmentária), além da visão de uma sociedade hiperconectada à internet das coisas, que já não se imagina, como à época do início da era da eletricidade, sem conexão.

Estruturalmente, esse tipo de compor/e perceber poesia dialoga, também, com a tradição poética brasileira, sobretudo quando nos remetemos às construções poéticas dos poetas concretistas, do vínculo dos irmãos Campos e de Pignatari com a semiótica, a tecnologia, e com a morfologia das palavras, considerando as (re)construções e neologismos, a polissemia, os ritmos.

Semanticamente, as implicações do movimento são bastante interessantes. Incialmente, desautomatizando o utilitarismo dos programas, colocando a poesia compilada em liberdade de linguagem, os neo poetas podem liberar aquela visão humanística e inventiva que Steve Jobs tanto lutara por empreender e aplicar em seus produtos. Não se pode prever como o mercado pode absorver tal perspectiva, mas o que os move transcende esse direcionamento castrador e os transporta a desafios inomináveis.

Essa intervenção ousada da dupla aponta para questões cruciais do futuro da humanidade. Por quê? Imagino que um dos maiores desafios da ciência será criar uma autoconsciência nas máquinas, nos robôs, uma sensibilidade. O ato de criar um poema compilado poderá despertar, em uma virtualidade puramente digital, o aspecto inventivo nas máquinas, uma espécie de autoconsciência cibernética, uma volta do parafuso, o humano-máquina de Isaac Asimov será levado em conta à hora de programar e isso poderá mudar nossa relação com o mundo, a vida e tudo.

Esse tipo de compor poesia tem qualquer coisa de ficção científica, que nos perquire e nos assombra. Fazer pensar, fazer criar, fazer ser: tudo que nos fez humanos e nos distanciou também de qualquer ideia aquém-homem, aquém-humano. Já se sabe que a poesia pulou fora da página (não a abandonou), e está alcançando setores que vão além da preexistência efêmera do gênero poético. Ela não abandonou a página, pelo contrário, cada vez mais, como processo simbiótico, o poema assimilou novas linguagens e superou as barreiras enigmáticas da página para abstrair e consubstanciar, da programação, inusitadas formas de ser e de dizer.

A Literatura recebe e assimila mais uma expressão inovadora e dá espaço – cada vez mais – para linguagens diversas, meios e mecanismos concatenados de um jeito intrínseco, dialógico, levando em contas os âmbitos [compilar] e [poetar] sem sobrepô-los, mas integrando-os de tal forma que não se pode separá-los. É poesia-programação & programação-poesia. Onde houver vida, haverá poesia.

F.G.M.
Voltar para a página principal do blog.